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| Gender | Male |
|---|---|
| Location | where the streets have no name |
| Interests | a abundante escuridão não quer que veja a folha de papel. o negro – não sei se individuo ou vício – apoderou-se das minhas roupas, da minha música e dos meus pensamentos. pretendia apoderar-se da alma, também. mas o escuro que por lá se fazia assustara-o. os negros foram muitos anos escravos. o meu negro é escravo que escraviza. é escravo que tem medo de ser livre. medo que lhe provoca orgulho em ser escravo. é escravo e é negro. está escuro. o escuro está comigo quando me deito, e espera descomprometidamente que me levante. gosta de escoltar os meus dias. está tão escuro. o meu corpo pesa mais que muitas toneladas juntas. não sei se é de ter o escuro pelos ombros, mas hoje, particularmente hoje, custa-me transportar estes duzentos e seis frágeis ossos, parasitados por pouca carne. é-me demasiada responsabilidade ter que o levar a bom porto. é tão pesado. eu esforço-me, mas é tão pesado, que começam as forças a gritar-me, desesperadamente, que não podem fazer jus ao seu nome, de tanto remar. mas remam e remam. mas é tão pesado e tão escuro. está escuro. tingi de laranja as paredes do quarto. mas uma gota de petróleo contamina milhares de litros de água potável. nos meus olhos acha-se um inexperiente e envergonhado verde. a todos parecem escuro. O escuro, que foge com a proximidade. todos os vêm negro. está escuro de morte, e devia ter escrito um texto alegre. que o ‘poeta é um fingidor’, e a fingir engana a realidade. mas a abundante escuridão não quer que veja a folha de papel |

